A dissertação “Itinerários terapêuticos de adultos com TDAH: sentidos atribuídos, racionalidades em disputa e práticas de cuidado”, da pesquisadora Andressa Vieira Oliveira, foi uma das vencedoras da segunda edição do Prêmio Conhecimento que Conquista, promovido pela Câmara Municipal de Vitória da Conquista. O estudo investiga os caminhos percorridos por adultos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) em busca de diagnóstico, tratamento e acompanhamento em saúde mental.
A pesquisa surgiu a partir da percepção da pouca atenção direcionada ao público adulto com TDAH dentro da área da saúde mental. Embora o transtorno seja amplamente conhecido, a autora destaca que ainda existem estigmas e dificuldades relacionadas ao acesso ao cuidado, aos fluxos de atendimento e às formas como os pacientes são acolhidos pelos serviços de saúde.
Desenvolvida como dissertação acadêmica, a investigação buscou compreender os chamados itinerários terapêuticos, analisando as trajetórias realizadas por pessoas com TDAH na busca por atendimento, tanto na rede pública quanto em serviços particulares. O estudo também observou como questões sociais, econômicas e de gênero influenciam o diagnóstico e as possibilidades de cuidado.
Entre os resultados identificados, a pesquisa apontou diferenças no processo de diagnóstico entre homens e mulheres. Segundo Andressa, fatores culturais relacionados às expectativas sobre comportamentos masculinos e femininos podem interferir na identificação dos sintomas, fazendo com que homens tenham maior facilidade de reconhecimento do transtorno, enquanto mulheres enfrentam mais obstáculos até a confirmação do diagnóstico.
O estudo também destaca que os modelos utilizados para compreensão e diagnóstico do TDAH foram historicamente construídos a partir de determinados grupos populacionais, principalmente homens do Norte Global. Para a pesquisadora, esse processo evidencia a necessidade de ampliar a análise dos diagnósticos considerando aspectos sociais e de gênero.
“Poder falar sobre o TDAH e escrever sobre ele foi também uma forma de autoconhecimento, porque eu também tenho o TDAH e conheço alguns obstáculos que a gente enfrenta dentro da promoção desse cuidado em saúde”, destaca Andressa Vieira Oliveira.
A pesquisa identificou ainda desafios relacionados ao acesso aos serviços públicos de saúde. Entre os pontos observados estão o intervalo entre consultas com psiquiatras, a dificuldade de acompanhamento psicológico contínuo e a ausência, na rede pública, de algumas medicações utilizadas no tratamento do TDAH em adultos, o que pode dificultar a continuidade do cuidado.
Outro aspecto analisado foi a relação entre renda e acesso ao diagnóstico e tratamento. De acordo com o estudo, os participantes identificados tinham renda a partir de dois salários mínimos, levantando questionamentos sobre as barreiras enfrentadas por pessoas em situação de maior vulnerabilidade social para acessar serviços especializados.
Para Andressa, a pesquisa contribui para ampliar o debate sobre saúde mental e evidencia a importância de políticas públicas que considerem as diferentes trajetórias e dificuldades enfrentadas por adultos com TDAH. O reconhecimento pelo Prêmio Conhecimento que Conquista representa, segundo a pesquisadora, uma oportunidade de dar visibilidade ao tema e fortalecer a discussão sobre o acesso ao cuidado.
Kamile Cardoso (estagiária) sob supervisão.